sábado, 26 de outubro de 2013

CONVERSA PARA NINGUÉM...

Crônica extraída do livro O TEMPLO E OUTRAS ESPERANÇAS (in carloscostajornalismo.blogspot.com)





Óculos baixo, na ponta do nariz, ar de intelectual de fim de semana, sentou-se ao lado de um homem que fumava charutos e, sem cerimônia, com de bêbado, perguntou:
- Onde está a beleza?
Sem dar muita importância à objetividade da pergunta, ele lhe respondeu:
- Certa vez, estando no Chile para uma manifestação de protesto contra a ditadura de Pichochet, o escritor Eduardo Galeano,, introspectivo, olhando para as montanhas e vendo ao longe o pôr-do-sol,  se perguntou:
- Seria bela a beleza, se não fosse justa? Seria a justiça, se não fosse bela?
Insatisfeito com a resposta, questionou novamente:
- Onde reside a beleza? Eu não a vejo. Nem quando olho a vida...
O homem, calmamente, falou:
- Eis a questão fundamental do teu pensamento: acreditas na beleza da justiça porque a acreditas justa, meu amigo.
O homem, soltando um pouco de fumaça do charuto, pediu ao que lhe interrogava:
- Pensemos...
- Pensar? Custa-me neurônios...Não posso pagar!
- Você já ouviu falar em Estado?
- Não...
- Eu lhe explicarei – disse o homem que fumava charuto. E se pôs a falar:
- Hoje, carregando nas cosas muitos anos de vida, se o Estado, esse Leviatã tão poderoso e destruidor, formado pela imposição dos mais fortes, é justo.
- Nada entendo de Estado. Não posso lhe responder...
- E o Direito, meu caro amigo, criado pelo Estado poderoso, é justo e, se o for, é belo? Se for belo, será que tem a mesma magia de um pôr de sol no nosso Rio Negro? Ah, meu caro amigo, como me doem essas indagações!
- Mas eu só pretendo saber onde está a beleza!
O homem que fumava cachimbo não lhe deu ouvidos e continuou:
- E o Processo, esse que também condena inocentes e absolve culpados, idealizado pelo Estado, incorporado pelo Direito e executado pelos homens, é perfeito?
- Senhor, não me leve a mal, mas a única coisa que quero saber é onde está a beleza – irritou-se.
- Noetzsche, onde está você agora? Diz novamente que o homem não pode limitar-se a vegetar. Diz que ele precisa cultivar ideais acima de si próprio, precisa ver luzirem estrelas acima de sua cabeça!
- Senhor, eu não sei quem essa pessoa...esse tal de Niche que o senhor falou. Mas se for seu amigo, diga a ele que a única coisa para a qual busco uma resposta, é saber onde está a beleza!
Sem lhe dar ouvidos, o homem que fumava cachimbo, olhando para o céu, gritou alto, abrindo os braços enquanto fazia um novo discurso:
- Indiscutível é o fato de que a dominação funda-se no saber, no conhecimento da vontade do domínio e do eterno retorno. Este é, também, um assunto que devemos pensar: nós, donos do saber, somos também agentes de domínio?
- O senhor parece zangado! Quer tomar uma cerveja comigo? Eu pago! Eu não quero saber de nada, só não gosto de riqueza. Sou pobre, sou proletário...não é assim que se diz?
Como se tivesse discursando, o homem continuou:
- Falas e pensas em Karl Marx e concordo contigo quando dizes que a história das sociedades humanas nunca foi mais a mesma. É verdade que não falou em Max o seu espírito histórico e muito a inteligência do passado. Sua teoria foi, é e continuará sendo revolucionária e insubstituível para a análise da sociedade. Mas isso foi bom?
- Max, quem é ele? É outro amigo seu? O senhor tem muitos amigos...!
Mais uma vez o homem não lhe deu ouvidos e, como se falasse para uma grande platéia de invisíveis, continuou:
- Pensemos, porém, em outro angulo de visão: qual é, segundo a etimologia, o sentido da palavra “bom”? Ela define “distinção” e “nobreza”, no sentido de ordem social.
- O senhor está querendo dizer que eu não sou bom? Pois eu lhe digo que sou! Não há ninguém melhor do que eu...Só meu pai, que me fez!
- Volto para  Nietczche, para quem o juízo “bom” não emana daqueles a quem se prodigalizou a “bondade”. Ele diz que foram os próprios “bons”, os homens distintos, os poderosos, os superiores que julgaram “boas” as suas ações; isto é, “de primeira ordem”, estabelecendo essa nomenclatura por oposição a tudo  era baixo, mesquinho, vulgar e vilão. Arrogavam-se da sua altura o direito de criar valores e determinativos: o que lhes importava a utilidade! Novamente o nosso pensador diz o ponto de vista utilitário é de todo o ponto inaplicável quando se trata da fonte viva das apreciações supremas que constituem e distanciam as classes sociais. Max, portanto, estava certo e era bom.
- Esse seu amigo “Niche” parece que é gente boa... Onde ele mora?  Mas, senhor, esse negócio de bondade não é comigo não! A gente faz coisas boas mesmo dizem que não prestamos...
O homem parou de falar por uns instantes, olhou para o que estava ao seu lado e ficou pensativo. Depois, calmamente, disse:
-És bom, também por virtude!
Voltou a ficar em silêncio por alguns instantes novamente e interrogou-o:
- Desejas saber se o Estado tem algum compromisso real para com o seu povo e se o Poder Público tem atuado com a preocupação de alcançar o bem comum?
-Já que o senhor não responde onde posso encontrar a beleza, eu o ouvirei, embora não entenda nada...
- Tentarei responder-te com outras idéias. O que o Estado? Digo-te: o Estado não é. O Estado não existe. O Estado somos todos nós, os homens livres. O Estado, enquanto um Leviatã, foi criado por sentimento ou por utilidade? Não teria sido a consciência de superioridade dos homens e a distância entre esses mesmos homens que teria dado razão para o surgimento do Estado? O sentimento geral, fundamental e constante de uma raça não é dominar? E não foi a origem de uma raça inferior e baixa que determinou antítese? E o Poder Público não se apodera da consciência humana para poder manter o instinto de dominar para impor sua expressão? Logo, conclui-se que o Estado não tem compromisso real com o seu povo e o Poder Público não busca alcançar o bem comum se não para manter seu domínio e seu poder.
- Já lhe disse que não entendo nada de Estado, de Leviatã, de antítese, de Poder Público...Para resumir, senhor, não entendo de nada. Só sentei aqui a seu lado porque pensei que o senhor pudesse me dizer onde eu encontro a beleza!
Dirigindo-se diretamente ao seu interlocutor, o homem que continuava calmamente fumando o seu charuto, perguntou:
- O que o senhor entende de Direito? O Direito existe?
- O Direito – perguntas tu, está expresso em normas jurídicas verdadeiramente legítimas, ou será que ele se expressa por meio de conceitos que só refletem os interesses da classe dominante? Onde surgiu o Direito, se não dentro do Estado Leviatã? E o que é o Direito? O Direito que pensamos é o Direito do povo ou o Direito do Estado, imposto ao povo? O Direito é justo? A cultura dominante mente e diz que a humilhação de alguns por outros é Direito porque pertence a uma ordem natural ditada pelo Estado.
- Senhor, nada entendi...de novo. O senhor quer tomar uma cerveja comigo?
- Ao me convidares para uma cerveja, fazes-me esquecer do que te falo...
- Eu não o deixarei esquecer...
- É fato que cada vez mais a vida fica estruturada e dirigida pelas organizações superficientes, onde o indivíduo fica disperso protegido, acomodado no geral, onde é empurrado, compelido à uniformidade e mediocridade. O homem,  portanto, se torna apenas um número ou uma parcela modo, conforme já reconheceu Spnoudis, ao comentar o modo básico de viver com os outros, no cotidiano, numa visão,  de Heidegger.
- Desculpe pela minha ignorância...Também não conheço esses seus amigos ”Spinodis” e “Raideger”, mas parece que eles são muito inteligentes. O senhor também é inteligente, só não me responde onde está a beleza! Eu acho que a beleza não existe! Ontem, vi uma mãe chorando na rua...acho que também buscava a beleza e não a encontrou. Sei disso porque a vi abraçada a um rapaz que estava algemado, saindo do Tribunal...
- Esse aspecto me remete ao teu questionamento sobre a atuação do Direito Penal dentro da sociedade, que não é só a soma aritmética dos indivíduos, assim como também não é o sujeito coletivo que representa outra classe. Uma vez li em Heidegger que um sujeito nu, desprovido do mundo nunca é. Um “eu” sozinho, isolado, sem os outros, portanto, também não é. A sociedade, sozinha, também não é. E o Direito Penal, sozinho, é...? O Direito Penal deve servir para o controle social. “Vigiar e Punir”, é este o papel do Direito Penal? O Direito Penal é o “eu” da sociedade? E o que é esse “eu” social? O “eu” é apenas o indicador formal não-confiável que pode ser também seu próprio oposto. Logo, não é o Direito Penal esse “eu” sozinho. Não sendo o “eu” sozinho deve interagir com a sociedade e não ser apenas um controlador dos conflitos sociais. Mais do que isso, deve ser um “educador” coletivo de uma sociedade. Só assim haverá justiça!
- Por que o senhor fala tudo isso? Está com raiva desse Estado? Eu não tenho Estado...o senhor já foi preso alguma vez?
- Que poderes têm os aparelhos de Estado para julgar? Os Poderes são legítimos? Quem julga o quê? Quem julga o que julga? Fenomenologicamente é correto dizer que os “outros” não precisam ser investigados e julgados?
-E verdade...eu nunca havia pensado desse modo...
- Pois eu lhe digo, meu caro amigo, é nosso dever, dever do Estado, dever dos aparelhos de Estado, tornar fenomenologicamente visíveis as formas e os valores da sociedade. Sendo isso legítimo é, portanto, incorreto firmar juízo de “bom” a qualquer coisa porque esse juízo não emana daqueles a quem se prodigalizou a bondade. Os homens distintos, os poderosos, os superiores julgam sempre “boas” suas ações e estabeleceu essa nomenclatura por oposição a tudo o que julgam baixo, mesquinhos e vulgares. E esses homens distintos dominam o Estado. Logo, impõem o direito de criar valores sociais. Esses valores aparecem dentro dos aparelhos de Estado e são apresentados ao povo como legítimos. Aqui, nesse particular, está o Direito Penal, reproduzindo os valores de bondade e de maldade e estabelecendo o que é certo e o que é errado.
- Senhor, o seu charuto está quase acabando. Olha, eu não quero interromper, mas preciso ir embora...
- Não se vá agora, eu ainda tenho a lhe dizer...
- O que o senhor quer me dizer...?
- Disse Nietzsche que o ponto de vista utilitário é de todo o ponto inaplicável quando se trata da fonte viva das apreciações supremas, que constituem e distanciam as classes sociais. Ele ainda informa que a consciência da superioridade e da distância, o sentimento geral,  fundamental e constante de uma raça superior e dominadora, em oposição a uma raça inferior e baixa, foi o que determinou a separação entre o “bem” e o “mau”, entre o legítimo e o que deve ser punido, entre o que se pode e o que não se pode fazer...E aqui está a nossa realidade  penitenciária: a sociedade separa o “bom” do “mal” e não discute que ela, e ninguém mais do que ela própria, foi criadora desse “bem” e desse “mau”.
- Senhor, eu preciso ir...Tenho que saber, onde está a beleza? Em suas palavras, não a encontrei..
- Espere, ainda não terminei de falar...
- E o que mais o senhor têm a dizer? Nada entendo, mas achei bonitas as suas palavras...E bom é eu caminhar...
- Meu caro amigo, a etimologia nos ensina que o sentido da palavra “bom” e “mau”, em suas diversas línguas, derivam de uma mesma transformação de idéias, da distinção, da nobreza, de privilégios...Esse sentido é sempre o oposto das noções de “vulgar”, de “plebeu”, de “baixo”, na noção de “mau”. A palavra alemã “schiecht” significa mau ou simples que, na sua origem, designava o homem simples, o plebeu. Mais uma vez aparece aqui a nossa realidade penitenciária: o sistema pune o mau, o plabeu, o baixo..O “bom” julga o “mau” e o exclui do convívio social porque o “bom” criou a legitimidade de sua ação através do Direito.
- Desculpe-me. Não queria ofendê-lo quando disse que o bom , era eu caminhar...Mais preciso ir. Eu sou disciplinado. Gosto de ser livre...
- Meu caro amigo, educar e disciplinar, mais do que “Vigiar  e Punir”, é a certeza de que o problema da sociedade foi resolvido de notável maneira. Pensar assim é uma maravilha para quem sabe apreciar toda a intensidade da força contrária, da faculdade de luta. É preciso mobilizar os costumes. Esse é o verdadeiro trabalho do homem sobre si mesmo, qualquer que seja o grau de tirania, de crueldade e de estupidez que existam. Unicamente pela mobilização dos costumes e pela ação .das idéias pode o homem arrebentar a camisa de força social que o aprisiona. Precisamos reconstruir um homem com vontade própria, independente e persistente, um homem com consciência de liberdade de poderio...
- Adeus, senhor...Preciso entrar naquele ônibus...Obrigado pelas suas palavras...mas ainda continuo querendo saber onde reside a beleza. Adeus...
Depois de se despedir, sem esperar mais nada, o homem com ar de intelectual, óculos baixos, apanhou o primeiro ônibus que apareceu. O charuto em sua boca já havia acabado. Ao longe, o sol começava a se pôr. O homem do charuto olhou-o atentamente e, sozinho, falou:
- O Eduardo Galeano está certo: a utopia mora no horizonte e serve para nos fazer caminhar, ou melhor, serve para nos fazer sonhar com o dia em que caminharemos em sua direção e a alcançaremos dobrando a esquina do pensamento rumo ao infinito...
Levantou-se do banco da praça e caminhou não se sabe para onde.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

CONJUNTO HABITACIONAL FRANCISCO QUEIROZ! MAS QUEM FOI ELE

O prefeito de Manaus, Arthur Neto, descerrou as placas de inauguração de dois conjuntos habitacionais, somando  apartamentos do Programa de Desenvolvimento Urbano e Inclusão Socioambiental de Manaus – Prourbis, no Bairro Jorge Teixeira, na Zona Leste, homenageando Helso do Carmo Ribeiro e o Deputado Francisco Queiroz. Todos os 88 apartamentos, 68 no primeiro e 20 no segundo, possuem 45 metros quadrados de área construída, contendo sala de estar, dois quartos, cozinha, banheiro e área de serviço, além de área de estacionamento, convivência e playground.

Mas quem foram os dois homenageados? Nas placas de inauguração nada existia além dos nomes, embora um assessor do Prourbis, também confessara que ficara surpreso porque teria ficado uma manhã pesquisando informações para  constarem nas placas, mas nada fora colocado. E os Conjuntos Habitacionais foram inaugurados sem informações mínimas e a história terá dificuldades no futuro para registrar a razão das duas homenagens!

De Helso do Carmo Ribeiro, além de ter sido advogado, tio do prefeito e Conselheiro do Tribunal de Contas, foi grande figura pública. Mas como genro do deputado Francisco Queiroz e com quem convivi por longos anos, divulgando suas atividades como advogado e o admirando como político, tenho muito o que falar. Um dia, ao escrever sobre um processo no qual Francisco Queiroz atuava - como citei na matéria veiculada em A NOTÍCIA, com o nome de “Adriano Queiroz”, que era o nome de seu escritório, uma homenagem ao seu irmão, igualmente advogado, falecido aos 54 anos, como chefe da Procuradoria Geral do Estado, durante o primeiro Governo de Gilberto Mestrinho - ele ficou irritado e seu sobrinho e advogado Flávio Queiroz se encarregou de justificar para o então deputado e advogado que “havia apenas confundido os nomes”. Depois, levado pelo seu sobrinho a conhecê-lo, passamos a  ter uma amizade profissional constante!

Estavam presentes à solenidade os filhos do homenageado: advogados Raimundo de Queiroz Neto e Yara Marília de Souza Queiroz e Vera Queiroz Marques, assistente social, casada com o administrador de empresas e escritor Carlos Coutinho Marques. Os filhos do deputado ajudaram o Prefeito Arthur Neto a descerrar a bandeira que cobria a placa de inauguração.

Mas quem foi o deputado Francisco Queiroz? Ele nasceu em 1928, na comunidade do Cambixe, na Fazenda Baturité, filho de Raimundo Queiroz e Francisca Guedes de Queiroz, e faleceu aos 59 anos, em 1987, durante processo cirúrgico cardíaco com o Dr. Zerbini, em SP. A fazenda Baturité era uma homenagem a uma cidade do interior do Ceara, de onde veio a origem da família para ser um dos maiores produtores de melancia e fornecedores de leite e queijo para Manaus, nas décadas de 60/70.

Mas quem foi o deputado Francisco Queiroz, que nada informa na placa de inauguração do conjunto que leva seu nome? Como deputado estadual, foi o primeiro político com mandato a apoiar a candidatura de Arthur Virgílio Neto porque viu naquele jovem uma promessa de oposicionista determinado, com discurso libertário contra o Governo Militar, que usava cabelos caídos a testa, calçava tênis e vestia calça jeans, durante sua primeira campanha à deputado federal, ao lado de Gilberto Mestrinho, que voltava do Rio de Janeiro para disputar o Governo do Amazonas.

Nas duas primeiras campanhas juntos, as camisas de campanha de Francisco Queiroz/Arthur Virgílio Neto, um buscando a reeleição e, outro, tentando se eleger deputado federal, foram todas pintadas à mão por Maria Luiza Queiroz, esposa do deputado, mas também uma exímia pintora e a primeira acordeonista a se apresentar ao vivo no Amazonas, na Rádio Difusora, com o pseudônimo de “Yara Marília”. Francisco Guedes de Queiroz, além de advogado, foi político por 28 anos, sendo 26 deles como deputado na Assembléia Legislativa do Estado e dois anos como vereador na Câmara Municipal de Manaus.

O deputado Francisco Queiroz, conheceu Arthur Virgilio Neto por intermédio de seu pai, o advogado Arthur Virgilio Filho. Decidiu ajudá-lo, apresentando-o aos seus eleitores e levando-o ao interior aonde ainda era desconhecido, em sua primeira campanha. Muitas vezes quando se reuniam na casa do deputado estadual para avaliação de campanha, Maria Luiza deixava a casa no Conjunto Uirapuru para comprar “churrasco viajando” para servir aos cabos eleitorais e aos dois candidatos às respectivas vagas, quando das caminhadas na campanha eleitoral.


O deputado Francisco Queiroz, militando sempre pelo MDB, foi um dos que votou contra a cassação de Arlindo Porto, mas foi voto vencido e o parlamentar terminou cassado pelos seus próprios pares, por incrível que pareça, sem a imposição do Governo Militar, mas teve seu mandato restituído anos mais tarde por propositura do deputado estadual Arthur Bisneto, filho do atual prefeito. Francisco Queiroz foi um deputado oposicionista simples, honrado, honesto e que entregava todo o dinheiro recebido de suas atividades no parlamento do Amazonas nas mãos de sua esposa Maria Luiza Queiroz. Ela é quem administrava suas despesas...

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

www.youtube.com/watch?v=8tMRtgJXtvc‎

MANAUS COMPLETA 344 ANOS!

(NÃO TERÁ MUITOS MOTIVOS PARA SORRIR!)

Manaus completou 344 anos no dia 24 de outubro, mas não terá muitos motivos para sorrir; mas terá motivos para comemorar! Viva Manaus!  Muitas outras obras importantes e necessárias à cidade serão inauguradas; outras, continuarão e serão inauguradas depois.

Mas por detrás da antiga cidade sorriso, se escondem dentes podres na boca em forma cáries invisíveis de camelôs nas ruas, calçadas elevadas e mal conservadas ou ocupadas por vendedores ambulantes, bares, lanchonetes e um trânsito muito caótico e convivendo com os pedestres e até estacionamento de condomínio ocupando espaços públicos, demarcados por faixas pintadas na Rua professor Samuel Benchimol, no Passeio do Mindu, retirando espaços para caminhantes ao ar livre que usam o local para manter a forma física!

De todo o pacote de obras, o Mercado Municipal “Adolpho Lisboa” finalmente será entregue à cidade, totalmente restaurado. Mas o Mercado, embora restaurado, será outro gargalo de problemas o trânsito para a Manaus, devido à falta de estacionamentos para idosos, deficientes e cadeirantes em todo o seu entorno, como determinam às Resoluções 303/304 do CONTRAN. Sem estacionamentos demarcados, será o início de um novo caos na área do Mercado! Nas comemorações do aniversário, além de apresentações artístico-culturais, plantio de mudas, palestras e outras atividades voltadas às questões ambientais, a cidade antes sorriso, receberá de presente a restauração do mercado.

Depois de sete anos fechado, nas administrações dos prefeitos Serafim Correa, que deu início, e Amazonino Mendes, que pouco fez, o prefeito Arthur Netto assumiu e cumpriu um compromisso com Manaus de concluir o serviço, restaurá-lo e inaugurá-lo no dia do aniversário da cidade para devolvê-lo como um presente à população. E cumpriu, apesar da difícil promessal, com alguns entraves, ela foi cumprida. O Mercado Municipal “Adolpho Lisboa” ficou lindo e Arthur Neto está de parabéns!

De acordo com a história, no século XIX, tiveram início as preocupações a respeito das condições higiênicas na comercialização de alimentos em várias cidades e começaram a ser construídos mercados públicos. O Mercado Municipal de Manaus, às margens do Rio Negro, teve sua construção iniciada em 1880, pela firma “Bakus & Brisbin” de Belém, com pavilhões em estrutura de ferro vindos de Liverpool da firma “Francisc Norton Enginerrs”. Sua inauguração se deu em 1883, com o edifício principal, com 45 metros de comprimento e 42 de largura, com toda a sua estrutura sustentada por 28 colunas e duas salas laterais em alvenaria de pedra e tijolo e calçamento de cantaria, de forma retangular e sua área central com calçada de paralelepípedo, com 20 boxes separados entre si, com balcões de madeira e tampo em mármore. Ao final, aos fundos um enorme sino que tocava todos os dias, às 11 hs da manhã, anunciando que o preço de todos os produtos expostos à comercialização deveriam ser reduzidos e os funcionários municipais entravam no mercado e jogavam creolina sobre os produtos expostos. E todos respeitavam! Mas também assustava  muitas pessoas em seu interior e eu, menino vendedor de sacos para guardar peixes, não entendia nada do que estava ocorrendo.

Depois, tomei conhecimento através de entrevista que realizei com o psicólogo João Bosco Araújo, que seu pai, o desembargador André Vidal de Araújo, ficava aguardando o toque do sino para entrar com dois ajudantes e recolher doações para as várias obras sociais que desenvolvia. Com paletó e gravata, se dirigia ao mercado diariamente para receber doações. O sino ainda existe e voltará a tocar de novo, não mais para os funcionários da Prefeitura despejar creolina sobre os produtos. O Mercado está lindo! (in O CAMINHO NÃO PERCORRIDO – A TRAJETÓRIA DOS ASSISTENTES SOCIAIS MASCULINOS EM MANAUS).

O desembargador e fundador da terceira mais antiga escola de serviço social do Brasil também possuía diversas outras obras sociais pela cidade e seguia de carroça até o mercado na companhia de dois ajudantes da Escola de Serviço Social de Manaus e só começava a coleta depois que o sino tocasse,  porque  era quando os comerciantes reduziam os preços em até 50% e os comerciantes começavam a fazer doações aos que pediam. Muitos recebiam!

Em 1890, foram construídos os dois galpões laterais com beirais abertos, encimados por arcos de ferro, sustentados por colunas também em ferro, passando o Mercado Municipal de Manaus a ter 360 metros de área útil. Existia um espaço exclusivo para a venda de tartarugas e tudo em seu interior era iluminado com o uso de querosene. Esse pavilhão teve a estrutura de ferro construída pela companhia “Walter Macfrlene”, de Glasgow, com formato totalmente fechado e possuindo cobertura em quatro águas, feita de chapas onduladas. O galpão possuía venezianas em todo o seu contorno, tendo oito entradas de acesso – uma em cada fachada principal e três em cada lateral. Tudo foi restaurado e devolveu à Manaus um presente que nunca será esquecido!


O Mercado Adolpho Lisboa ficou lindo, mas deveria ser transformado em Museu para cultuar a história e a memória de quem viveu por muitos anos tendo como fonte de renda o que ganhava vendendo frutas, verduras, peixes e carnes ou outros produtos no chamado “Mercadão de Manaus”, ou deixá-lo centro e transferir os barcos regionais para outro porto, facilitando o embarque e desembarque de mercadorias e melhorando o fluxo de trânsito para que turistas possam também apreciar a maravilha que ficou a restauração. Parabéns, Manaus!  

terça-feira, 22 de outubro de 2013

MEDO DA MORTE NA IDADE MEDIEVAL

(“VIVER BEM EM PROL DE MORRER”)
Para o escritor goiano Dhiogo José Caetano

Independentemente de qualquer outro conceito filosófico, físico ou psicológico definido por outros autores, o tema “morte”, foi muito bem abordado e definido pelo professor, escritor e jornalista goiano Dhiogo José Caetano, que se valeu de um cabedal de outras obras que tratam do assunto, para construir sua própria interpretação desse intrigante e instigante tema que nos causa medo e angustia também porque a morte se apresenta para muitas culturas como o abafamento, insegurança, falta de humor, ressentimento e dor, mas principalmente para a cultura brasileira que passou rapidamente pela colonização forçada dos índios, que tinham diversas crenças, pela cruz e pela espada, a morte para os verdadeiros donos do Brasil, representava somente uma passagem para uma vida melhor, para junto aos seus antepassados!

E, assim, deveria ter continuado a ser! Mas tudo mudou com a colonização e a morte também passou a ser temida como algo finito.

Na psicologia, angústia tem um sentido próprio, como também a morte. Na psiquiatria moderna, a angústia é uma doença e pode produzir problemas psicossomáticos. Pode ser também uma emoção que precede um acontecimento. Contudo, para o escritor e filósofo Arthur Shopenhauer, o mesmo tema é definido com um “viver para sofrer”, porque o escritor tinha visão distorcida e diferente sobre a vida e era negativista, inclusive sobre a morte. O filósofo contemporâneo francês Jean Paul Sartre, criador da corrente existencialista “a angustia surge no exato momento em que o homem percebe sua condenação irrevogável à liberdade (...) não pode optar por escolher a não ser (...) essa condenação à liberdade lhe gera angústia por saber que ele não é o senhor de seu destino”.


Em outro momento da história o pensador alemão Friedrichi Wilhelm Nietzche concluiu que dentre todos os povos da antiguidade, “os gregos foram os que apresentaram maior sensibilidade para compreender o sofrimento e a tragicidade da existência humana, como que permeada pela dor, solidão e morte (...) nessa concepção de vida os gregos também criaram uma sociedade baseada no princípio do equilíbrio: nada em demasia como forma de combater todos os nossos instintos e peixões”.

Mas, o estudo do professor, escritor e jornalista Dhiogo Caetano, garante que “a memória desempenha o papel de construção do medo da morte (...) transmitido pelo cristianismo e da sua injunção eucarística, que tem relação conceitual de divino e de pecado, idéias que predominaram no Ocidente (...) O autor da excelente obra “O MEDO DA MORTE NA IDADE MÉDIA: uma visão coletiva do Ocidente”, no Capítulo 2. AS RAÍZES DO MEDO  conclui que a “razão mostra que o passado não se conserva por si próprio, mas se constrói e se organiza pelos indivíduos que pretendiam seguir seus reis, que muitas vezes se titulavam “guardiões” das lembranças ou das tradições ancestrais, um processo de fundamental importância à transmissão de informações e práticas (...)”


Independente de outras conclusões que a psicologia, a psicanálise, e psiquiatria e outros teóricos possam ter apresentado, o professor, historiador, jornalista e escritor Dhiogo, concluiu que “podemos notar que os fatores que desencadearam o medo de morrer na sociedade medieval vão além dos problemas econômicos, sociais e religiosos, envolvendo itens que partem da particularidade de cada homem medieval (...) uma sociedade que pratica o “bem viver em prol de morrer”

GEORGE MARQUES E A VACA GIROLANDA!



- Parem, binguei. E vou levá-la!

A voz era a voz do amigo George Mendonça Marques, paraibano dos bons, na época em que visitávamos com certa frequência, o município amazonense de Autazes, para fundar o Rotay Clube do Município, representando o Rotary Clube Manaus São Geraldo; ou, poucas vezes o Rotary Clube Distrito Industrial.

Ele tirara no bingo uma novilha girolanda e decidiu que a levá-la para sua residência em Manaus. Só que o George Marques morava em um Condomínio de casas, mas seu quintal era grande o suficiente para mantê-la, só teria dois problemas: o primeiro: no quintal não possuía qualquer grama  plantada; segundo, como iria transportá-la?

Resolvido o impasse do transporte da novilha para Manaus,  George alugou um caminhão para recebê-la, e levá-la para sua residência. Como a novilha era pequena, passou bem pela porta da frente, pelo corredor acesso à cozinha, ficando confortavelmente alojada em seu quintal.

Depois de alojada como hóspede, George passou a ter outro problema: como alimentá-la!

Ordenou ao seu filho, na época adolescente, que fosse tirar capim todos os dias para oferecer à novilha da raça girolanda. Só que o capim era pouco e acabou. O George, então, decidiu comprar sacos de pães dormidos e passou a alimentar sua vaquinha, pela manhã!

E a novilha foi crescendo, acordando o George e sua esposa com seu mugido estridente, e crescendo, e crescendo...motivo pelo qual agora a vaca não passou mais pela porta.

Um dia o George, que toma sempre umas e mais outras de vez em quando, decidiu que daria a novilha girolanda. Mas como tirá-la do quintal?

Como para cada problema existe uma solução, o George  decidiu quebrar a parede do quintal, depois a porta de sua confortável moradia, para concretizar a retirada da ex-novilha e agora uma vaca adulta e gorda!

Um dia fui visitá-lo em casa e inquiri ao George:

- Esse estrago todo em tua casa foi um tornado que passou por aqui? –perguntei, assustado e preocupado!

- Não, foi apenas a retirada de minha novilha por onde deu para passar. Mandei quebrar tudo e doei a vaca. Ela, agora, nunca mais me acordará pela manhã, também não terei de mandar meu filho buscar capim e economizarei com a despesa de pão. Com esse dinheirinho, comprarei mais cervejas para mim e meus amigos!


Pronto. Estava resolvido o problema,  embora o George Marques tenha gasto um bom dinheiro para refazer sua casa novamente e deixá-la como era antes!

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O HORIZONTE

Criança, na comunidade de Varre-Vento, do alto do barranco, com vento ao rosto, gostava de sonhar vendo o rápido rio engolindo o sol que se punha na linha do horizonte e ficava intrigado porque a água do Rio Solimões não fervia e apareciam bolhas depois que o sol quente se escondia dentro d’água.

Isso me intrigava e me fazia sonhar ainda mais, olhando para o horizonte que nunca conseguia alcançar por mais que andasse com meus paços infantis em sua direção. O horizonte sempre encontrava um meio de ficar mais distante de mim! Era inútil a caminhada.  Ficava cansado, sentado na relva, só para observar o sol se pondo!

Era sempre um lindo espetáculo: o sol sumindo, sendo engolido pelas águas do caudaloso e traiçoeiro Rio Solimões, cheio de capim deslizando em suas águas, que afundavam embarcações e matavam pessoas! Mas era só uma criança que olhava o horizonte e sonhava acordado!

Em Manaus, quando adolescente, as primeiras namoradas e as primeiras decepções não me deixavam ver esse espetáculo que me deslumbrava e me encantava tanto na comunidade do Varre-Vento, mas sempre terminava de vender picolés e jornais, me dirigia ao porto de Manaus só para observar o Rio Negro engolindo o sol, mas também não conseguia ver bolhas quando o sol se aproximava engolido pelas águas negras do Rio. Era frustrante, mas repeti esse ritual mesmo na idade adulta!

Na Universidade do Amazonas, aprendi que o horizonte é uma coisa que nos faz caminhar e projetar nossa vida sempre para frente e que ao final dele, sempre haveria um prêmio para quem vivesse o sonho utópico de alcançá-lo. Mas o horizonte parecia ficar mais distante...sempre!

Mais um pouco aprendi no curso de Serviço Social, com o professor Nelson, de filosofia, que o horizonte é só para nos fazer sonhar e caminhar com retidão para alcançarmos tudo o que projetamos para o nosso futuro. Ou seja: o horizonte, com projeto de vida, é para onde devemos caminhar, porque o horizonte será um futuro próximo! Sem projeto de vida, sem metas, o horizonte nunca será alcançado.

Diferente do arco-íris que diziam que ao final dele sempre haveria um pote de ouro a esperar por alguém que sonhasse e chegasse ao final dele...o horizonte é uma meta que devemos traçar na vida e concretizá-la. Confesso que busquei muitas vezes encontrar o pote de ouro que existiria enterrado no final do arco-íris, mas nunca o encontrei.

Hoje, sei que o horizonte e o arco-íris de minha infância, adolescência e idade adulta são alegorias que servem para que possamos transformar nossos sonhos em realidade, seguindo rumo ao futuro que traçamos em nossas vidas; rumo ao pote de ouro do final do arco-íris, enfim. Quem não tem projeto de vida, não vive, apenas existe e vegeta!


Mas para que possamos ter tudo o que desejamos, devemos ter primeiro um projeto de vida, mesmo com sacrifícios porque nada  muito fácil lhe é dado valor, pois concluímos: “de onde saiu isso poderá sair ainda muito mais...”