terça-feira, 12 de março de 2013

A LAMPARINA DO SABER! (homenagem a minha tia Terezinha da Costa Amaral, minha alfabetizadora)


                                            
Independentemente de a lamparina ter sua etimologia derivada do espanhol e ser apenas reservatório para colocar combustível e um pavio o ligando, queimando para iluminar, o certo é que na comunidade de Varre-Vento, ela servia para bem mais do só isso: clareava a os olhos e a mente dos que desejavam aprender, mesmo que uma Escola improvisada dentro da residência da professora, por acaso minha tia Terezinha da Costa Amaral. Sendo um recipiente de origem substantivo feminino era do Varre-Vento, mesmo com a lua cheia abrindo espaços na cobertura de palha da casa, ou mostrando o caminho para os casais enamorados – que eram poucos - também  “era a lamparina do saber”. Todos os primeiros estudos eram observados e acompanhados pela “lamparina do saber” tanto nas noites escuras do inverno ou no período de lua cheia.

De canoa, no motor do regatão de seu “Panta” ou a pé mesmo, cortando por dentro da plantação nativa de cacau de meu avô, atravessando por cima de uma tora de madeira que servia de ponte sobre um igarapé, ou “furo”, chegava à Escola suado e cansado, mas disposto a aprender. Só não chegava cansado quando pegava “carona” no motor de seu “Panta”, abrindo os braços para sentir a brisa frasca do vento batendo em meu rosto e deslizando suavemente sobre o banzeiro que o próprio motor produzia em seu deslocamento rápido porque tinha que vender e depois partir rápido. Muitas vezes ouvi uma batida na “campa” para dar ré e duas para colocar a embarcação em movimento rumo a outro porto para nova parada e mais uma venda ou escambo. Ah, lembranças que não me saem da cabeça porque sabia que ao retornar para a casa, a “lamparina de meu saber” me aguardava no mesmo lugar!

Depois que me mudei para Manaus e conheci a luz elétrica e a lamparina já produzia o mesmo efeito porque não era mais possível ler e, talvez por isso, use óculos de grau até hoje, embora tenha passado somente nove anos na comunidade, dos quais apenas dois frequentando a Escola. Muitas vezes, deixava de fazer as tarefas por não conseguir ver direito à luz da “lamparina do saber” e comecei a duvidar se ela era mesmo “lamparina do saber”  e porque não conseguia ler nem mesmo tinha escrito e também porque o cheiro ruim me incomodava.

Hoje existem várias denominações, finalidades e nomes para as lamparinas, como candeia e também lâmpada de azeite, mas todas se compõem pela mesma formação: sempre é constituída de um recipiente para queimar algum tipo de óleo combustível, sobre o qual flutuava um pedaço de madeira ou cortiça, funcionando como um pavio. Seu uso se estende desde a pré-história, às modernas pesquisas científicas em laboratórios.  Mas todas ainda servem para o saber, descobertas e novas pesquisas em laboratórios.  

No corte da seringa, se usava a “poronga” feita de latas de óleo, para clarear e iluminar o caminho dos explorados nordestinos, que migraram fugindo da seca ou “convidados” por guardas  com metralhadoras a mão, durante a II Guerra Mundial, para irem para o Amazonas, ou para a guerra ou cortar seringas. A poronga geralmente era usada presa à cabeça por um pano. Mas isso é outra história, porque não existia seringal na comunidade de Varre-Vento, mas uma imensa quantidade de cacau nativo cultivado e explorado comercialmente por meu avô, José Raimundo. Na comunidade, a gurizada se divertia nas águas dos rios, matas, praias que apareciam e depois eram engolidos pelas águas, igarapés que cortavam de um lado a outro até o lago mais próximo, mas tudo era uma diversão geral.

Enfim, o quero dizer mesmo é que aprendi a ler e escrever à luz de lamparina e sou feliz por isso até hoje porque ingressei na primeira serie quando me matriculei em Manaus em 1968, no Grupo Escolar Adalberto Valle mesmo à luz de lamparina. Muitas outras pessoas do vasto e rico interlandio, como o hoje, empresário e administrador de empresas Francisco Saldanha Bezerra, nascido no seringal Vista Alegre, no Município de Canutama, na calha do Rio Purús e lá viveu até seus 11 anos, também aprenderam a ler a escrever à luz de lamparina, comendo refeições feitas em fogão de barro, dentro panelas de ferro, com fogo produzido com galhos de madeira, o que também produzia uma fumaça. Mas pelo menos todos eram felizes porque fomos criados livres, leves e soltos, sem dinheiro, mas responsáveis desde pequenos! 

Essa é a realidade para quem viveu e ainda vive no interior do Amazonas, abandonado e esquecido!



10 comentários:

  1. Belíssimo texto Carlos. As lamparinas forma muito utilizadas por meus bisavós e até por meus avós. Na minha época já desfrutávamos da energia elétrica, mas a conheço, já precisei dos seus serviços. Quando mais jovem vivia em acampamentos pelas margens dos rios do interior do RJ e em algumas ocasiões elas tiveram boa serventia.
    Obrigado por nos rememorar utensílios valiosos de outrora.
    Abraço.
    Marco Antonio Rodrigues.

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  2. Tuas palavras nos faz sentir cada momento. Pude ver um menino com fome de saber... Aprendendo a luz da velha lamparina e se aconchegando pertinho do fogão de lenha. O tempo mudou muita coisa, porém o menino que ama o saber ainda vive dentro de você poéta. :-)Bjimmm ( Claudynha- Recanto Das Letras)

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  3. Lindas todas as recordações que nos vão acompanhando ao longo da vida,cheias de saudosismo puro.Essas vivências ninguém as pode tirar de nós.Abraços de além-Mar

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  4. Luiz Castro/deputado5 de outubro de 2015 14:11

    Ótimo texto, Carlos. Parabéns!

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  5. Vdd amigo!!!������������

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  6. Oi Carlos, parabéns por mais esta bela e saudosista crônica, que nos revela mais um pouco da sua historia e da sua bela Amazonia..

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  7. Maria Auxiliadora Costa7 de outubro de 2015 11:50

    Amei essa cronica.eu gosto muito do que você escreve.Que bom que fez uma homenagem a tua tia Teresinha.

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  8. Li para minha mãe Terezinha, ela gostou muito de sua crônicas e reviviu histórias de sua infância. arabéns

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  9. Essa crônica lembrou-me meu pai.
    Era assim que ele cortava seringa no Juruá-Am.
    Meu pai começou aacompanhar o pai dele com 5 anos de idade.
    Sua crônica mexeu comigo.
    Lembrei das lamparinas.
    Mas ñ era ruim a vida
    Era tão boa.

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  10. Olá Carlos, que beleza poder ser brindado com mais esta sua belíssima cronica, que nos transporta no tempo e nos dá a oportunidade de conhecer mais um pouco de sua bela Amazonia.

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