terça-feira, 26 de janeiro de 2016

NO TEMPO DAS...! (uma viagem no tempo de ontem)


No tempo das catraias pintadas com cores fortes, canoeiros musculosos cruzavam os muitos igarapés de Manaus, levando passageiros e mercadorias. Também no tempo das catraias, as carroças disputavam espaços com ônibus, muitos construídos nas próprias garagens sobre chassi de caminhões e ainda com muitos fuscas. Todos se respeitavam e circulavam nas vias de paralelepípedos. Era o ano de 1968. Um ano antes do deputado federal Francisco Pereira da Silva apresentar e ver aprovado o projeto de criação do projeto Zona Franca de Manaus, implantado pelo Governo Militar dez anos mais tarde, Os pouco mais de 300 mil habitantes do Amazonas, pisavam em cima dos trilhos dos bondes na praça da matriz, cheia de palmeiras imperiais. Dentro de um táxi fusca, com um bilhete na mão escrito pela minha mãe e entregue ao motorista, cheguei à casa de madrinha Natércia Calado, no Morro da Liberdade, onde passei a morar, até que a família vendesse a propriedade na comunidade do Varre Vento e adquirisse outra em Manaus, no bairro da Betânia. 

No tempo das catraias, carroças, fuscas e espressos, os chamados espressinhos – kombis que trafegavam e transportavam passageiros; os ônibus não faziam linhas para todos os bairros na época. A Manaus de 68 era uma cidade quase sem pontes e as poucas que existiam, haviam sido construídas pela orientação do secretário de obras  Fileto Pires, e depois substituto do governador Eduardo Ribeiro na condução do Estado. Todas as pontes eram em estrutura de ferro, importadas prontas da Inglaterra e em Manaus montadas, como se fosse um quebra-cabeça, no tempo áureo da borracha. No tempo das catraias, expressos, fuscas e carroças, circulavam também pelas ruas de paralelepípedos de Manaus, poucos ônibus das empresas Bons Amigos, Nosso Transporte. Ana Cassia. Monte Ararate e outras que o tempo não me permite lembrá-las. O Café do Pina e os Pavilhões Universal e São José, disputavam as preferências dos boêmios, escritores e outros intelectuais que os frequentavam. Vendia jornais em Manaus e passava por cima de trilhos de bondes, sobre paralelepípedos, na praça da Matriz toda vez que deixava a calçada dos Correios e seguia para prestar contas dos jornais vendidos e dos que devolvia, com o X-9, no Pavilhão Universal. Ele sentado em um banco de madeira, para aguentar seu enorme peso. De um lado e de outro do Pavilhão Universal, ônibus e táxi, estacionavam, nas ruas de paralelepípedos. Caminhava na sombra das centenárias palmeiras imperiais, em frente a praça da Matriz, derrubadas para a construção da estação central de ônibus da cidade. Embaixo da escadaria que dava a Igreja, existia um minizoológico,  e os “retratistas lambe-lambe”, ganhavam dinheiro com as pessoas que frequentavam o local e depois, “batiam” fotos sentadas na grama. Ah, que saudades! 

A cidade era calma! Alguns ladrões roupas frequentavam as casas, roubavam botijas de gás, roupas estendidas nos quintais. Além disso, nada faziam. Na época, quase sem água encanada nas casas e com novos bairros surgindo, por pura necessidade das famílias, era obrigatório a abertura de poços profundos geralmente ao lado de sanitários no quintal. A água deveria ser poluída, mas quase não se falava nisso. Atravesses de catraia para buscar água para beber no bairro da Cachoeirinha, acompanhado do Chaguinha Calado, filho da madrinha, que nascera no mesmo ano que eu. Em 1969, começaram a se instalar as primeiras fábricas no Distrito.. A sede da Suframa funcionava na rua Leonardo Malcher, onde hoje se localiza a sede do Sebrae e os times do Rio Negro e Nacional disputavam as preferências dos torcedores e enfrentavam os times grandes do Rio ou São Paulo, de igual para igual. Muitos jogos os times do Amazonas venciam e outros perdiam, mas o importante era que no dia seguinte, vendia poucos  ou muitos jornais. Todos queriam saber pelos jornais os resultados dos jogos!  


No tempo do futebol no Parque Amazonense e existia o jogador Campos. Depois veio emprestado do Atlético Mineiro para o Nacional, o jogador Reinaldo. Não havia um jogo que um ou outro não marcassem gol. Quando não marcavam, vendia poucos jornais na banca em frente a Ótica São Paulo, localizada nas esquinas das Avenidas 7 de Setembro com Joaquim Nabuco. O jogador Fausto, era zagueiro do Nacional. Diziam tinha um futebol elegante e que raramente quase não fazia faltas para merecer cartões amarelos ou vermelhos e ser expulso. Depois se elegeu por um mandato deputado estadual, com nome de Fausto Souza. Seu irmão Carlos Souza, com quem tive o prazer de trabalhar, era despachante de veículos, na rua Henrique Martins. Depois foi professor de biologia no colégio Militar de Manaus, apresentou programa de TV,  com seu irmão Wallace Souza. Entraram em política e se elegeram deputado estadual e federal, respectivamente, por mais de um mandato. Carlos Souza, também foi  vice-prefeito de Manaus. Ele, quando sabia que o Fausto jogaria, sempre assisti-lo no Parque Amazonense. Fausto era uma atração. Na véspera das disputas do Rio X Nal, havia a “guerra de bandeiras”. Pessoas desfilavam em carros abertos pelas ruas de Manaus, defendendo suas paixões. Era uma farra! Vendia muitos jornais no dia seguinte. Os jogos eram uma das maiores paixões na vida pacata dos manauaras, ao ponto de se ir aos muitos cinemas, só para ver o resultado dos jogos dos times paulistas e  cariocas pelo Canal 100 de Carlos Nyemaier. Fazia fila na porta dos cinemas, o Guarany e o Polytheama, ficavam quase um do lado do outro, sendo um em uma esquina e o outro. O Guarany de frente do Café do Pinam na Getúlio Vargas e o Polytheama, na avenida 7 de Setembro. As duas ruas se cruzam e também eram com revestimento de paralelepípedos, por onde trafegavam os bondes de Manaus.  Todos pertenciam a família de Adriano Bernardino, que também empresariava conjuntos musicais famosos na cidade!

Ah, Manaus, como sinto saudades de você nessa época. Ficava sentado no sofá, ouvindo músicas que precediam a entrada no ar da TV Ajuricaba, da família Abdul e Sadie Hauache Anos depois, vim a saber que toda a seleção musical era feita por Mágida Hauache, Ah, minha Manaus, você tinha tudo para se transformada na nova Veneza brasileira, como Recife foi. Não permitiram e lhe modificaram. Aterraram seus igarapés de água doce. Hoje é uma cidade bonita. Sem memórias do que fora seu passado. A minha está para partir e não terei mais como registrá-la em tod  sua plenitude e belezas bucólicas que me fascinaram quando avistei suas primeiras luzes do motor que me transportou para a capital, deitado em uma rede armada em cima do motor. Desci no porto que permanece o mesmo até hoje e fui abraçado pelos ouvidos doloridos do barulho da embarcação, pela voz potente e prazerosa do locutor Kimura, ex-lutador e proprietário da “Voz Praiana”, que anunciava avisos de chegada e partida dos barcos regionais.

Ah, quanta coisa mudou para pior em minha Manaus, mas elegeu políticos e, isso, embora não seja o mais importante, rendeu dividendos para muitos e a cidade não é mais a mesma, infelizmente! Não condeno o progresso que é inevitável, mas poderia seguir sempre ao lado da preservação das memórias do passado que hoje quase ninguém sabe que um dia existiram e me fizeram feliz, mesmo na pobreza em que vivia!

22 comentários:

  1. Carlos, que texto bacana! Parabéns pelo seu talento com as palavras e saber expressa-las de forma com que entremos na história. Obrigado pela lembrança de minha família

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  2. Adriano Alvarenga/RJ26 de janeiro de 2016 09:31

    imagine o RJ pelo qual todos vieram no Exôdo Rural e a São Paulo

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  3. eu queria conhecer o Amazonas ou mais específico a nossa Amazônia. o povo que mora além de nossos índios que acho uma crueldade dizer que são civilizados ou não. pois eles são de uma civilização antiga e superior na época deles a nossa dita civilidade

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  4. Carlos gostei muito!

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  5. Nazaré Nascimento26 de janeiro de 2016 10:40

    Muito bom. Tempo de paz e alegria!

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  6. Haja recordações, não é amigo?

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  7. Poxa como aprendo e relembro coisas c seus relatos, lembro muito das catraias, morava em Educandos e estudava no glorioso IEA. Lembrei tb de Terra Nova, qdo criança morei lá, lembrei dos cines e a febre q era um Rio Nal. Enfim recordar é viver!

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  8. Carlos, tenho metade de sua idade e sobre o Recife diria algo parecido. Com menos recursos é verdade. No fundo toda cidade mundo afora é um recanto em que a humanidade resiste à natureza, incluindo a própria humanidade. O progresso é uma ilusão determinista que mais serve de fábula aos seres que algum dia conhecerem nossa história. Cuja moral é não se tranque numa redoma redonda e consuma a tudo; o tudo compreende você. Mas a memória é algo que na humanidade não requer espaço. É sublime, nela realizamos o que não foi possível quando ela era o presente. Um descontrole passa a ser visto como excesso, uma paixão ganha contornos celestiais. Enfim, a memória é o principal instrumento para a humanidade se qualificar. Mas com efeito apenas na memória. Fora dela apenas resistimos, em cidades.

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  9. Welleinton de Paula e Souza26 de janeiro de 2016 11:35

    Divagações emotivas, racionais e verdadeiras. Lembro com muitas saudades dessa época em que amarravamos cachorro com linguiça

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  10. Carlos querido, suas matérias, crônicas, poemas, sempre levam-me conhecer passados deslumbrantes, desconhecidos.por me. Fico impressionada ao saber que, quantas riquezas desvalorizadas, extraviadas, Coisas maravilhosas que, engrandeciam nossa "capital Amazonense.". Hoje, só nos restam saudades. Quem não viveu esses momentos choram! Imagine meu amigo, aqueles que tiveram o privilégio de-o assistirem de camarote! Viajei nesse instante amigo, através de suas recordações, passados que não votam mais. _Em "1968" estava com meus 02 anos de vida. Impossível não se emociona sabia!? Boa tarde amigo.

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  11. Engraçado k Carlos ainda considera k sua memoria: Doces e saudosas lembranças

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  12. Parabéns amigo Carlos Costa!

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  13. Muitas recordaçoes e maravilhosas lembranças daquele seculo. Ja neste seculo atual salva-se pouca recordaçao proveitosa. Pois com o dolar nas alturas e as açoes da Petrobras valendo menos que 1kg de farinha do Uarini, torna-se um pesadelo ao inves de recordacao boa....

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  15. Um texto interessante trazendo recordações da Manaus Antiga sobre as catraias e cinemas. Gostei muito da sua narrativa. Trouxe lembranças muito boa dessa época especialmente sobre minha família.

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  16. Parabéns pela excelente cronica

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  18. Quantas lembranças! O passado faz nosso futuro. Manaus é linda mas já foi magnífica pela sua descrição.

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  19. Max Carphentier (Escritor)28 de janeiro de 2016 13:32

    Belas e saudosas recordações, Carlos, além de tantas informações. Abraço do Max.

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  20. Walmor Zimerman/Parana3 de fevereiro de 2016 12:22

    Amigo virtual parabéns pelas suas reminiscências; pela sua memória privilegiada... Não deixam de serem os "mistérios"

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  21. Viver a história dói demais, mas é o caminho necessário para o amadurecimento político do país e para a consolidação da nossa democracia.

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