segunda-feira, 4 de maio de 2015

MEMÓRIAS E SAUDADES....!



Para os amigos que conviveram e me conheceram de verdade. Em especial aos advogados Antônio Paiva e minha esposa Yara Queiroz, por conviverem e aceitarem  a chatice e as cobranças!


Ainda me sinto no corpo o leve peso de meus oito anos de idade, correndo com 22 quilos pelas ruas do bairro Morro da Liberdade, onde nasci, puxando carros imaginando serem tratores do Departamento de Estradas de Rodagem do Amazonas, operados pelo meu padrinho Francisco Januário Calado. Agora, sou apenas um saudosista prisioneiro sem algema das bactérias hospitalares borrelia e serrátia, cheio de lembranças, memórias e saudades para contar em um corpo de 72 quilos! Deixo minhas lembranças fluírem livremente e percebo que sinto saudades de tudo o que vivi e meu Beco São Benedito que agora se chama Beco dos Pretos e nada mais é como fora antes: o progresso chegou, matou minha infância e todas minhas lembranças, construindo novos sonhos em seu lugar. Ah, como tenho saudades de tudo!

Não vi passar o tempo e estou vivendo em um corpo de 55 anos, andando lento no Condomínio Mundi, parecendo ser mais um espectro de gente por trás de um grosso óculos bi-focal e sem lateralidade na visão, mas vendo tudo, criticando e cobrando. Aliás, o tempo é invisível aos olhos e só é sentido no corpo e no coração, que teimosamente fica recordando as coisas. As boas, gosto de relembrá-las. Das ruins, tratei de esquecê-las há muito tempo, deletando-as de minha memória, como se diz no mundo de hoje. Como se diz no mundo digital de hoje, minha memória já foi muito boa, mas agora está um pouco prejudicada demais com as 11 cirurgias a que fui submetido no cérebro, enfrentando UTIS e CTIS. As poucas lembranças ruins que tenho, ainda me perseguem. Do Morro da Liberdade de meu passado, também não existem mais o mercadinho Três Irmãos, a Casa Leão, muito menos o Igarapé do 40, onde nadava e apanhava água para beber no depósito de açúcar em um prédio branco, que diziam ser de um tal Aguiar. Minhas lembranças boas foram engolidas pelo progresso que constrói sonhos e destrói memórias e lembranças e nada deixando para as novas gerações verem como já foi linda minha Manaus. Uma pena! A Rua São Benedito, por onde corria no passado, estranhamente passou a se chamar Rua Dona Mini, por obra e graça de um político que decidiu homenagear a mãe de um provável financiador de sua campanha, mas não sei quem foi a homenageada e, mesmo com o nome  oficialmente decidido por decreto, o povo do Morro continua chamando-a de São Benedito. Por que não poderia ter sido Rua Natércia Calado, que morou 55 anos na mesma rua e já faleceu? Não sei dizer! Acho que ela não tinha importância para a política e nem dinheiro para gastar com investimentos em campanhas cada vez mais milionárias em troca de homenagens futuras! Minha madrinha, tinha importância emocional para mim e todos que tiveram a felicidade de conviver com seu sorriso e sua prestatividade desinteressada, mesmo quando passou anos em uma rede por motivo de doença!

De minhas sandálias havaianas que usava e ainda hoje não as tiro do pé nem para tomar banho, subia apenas a poeira atrás de mim, quando corria pela Rua São Benedito. Eu era em meu corpo de menino de 22 quilos, puxando carros imaginários ou empurrando pneus e aros de bicicleta, com arame, imaginando-os como se fossem meus futuros meios de transportes. Só consegui adquirir a primeira bicicleta velha e sem frio aos 12 anos em 1972 e, em 1979, com economias da venda de jornais pelas ruas de Manaus, adquiri meu primeiro carro fusca 1962. Mesmo inabilidade e menor de idade, o dirigi da Rua 24 de Maio, no centro de Manaus até a Av. Adalberto Vale, estacionando-o feliz da vida na casa de número 68 da rua. Esse carro, que transportou minha namorada, uma professora de inglês do Colégio Dorval Porto, deslizou sem freio e se acabou, com perda total, dentro do “Buraco da Vovó”, sem residência alguma e, onde, mais tarde, passou a residir a namorada de meu amigo de Grupo Escolar Adalberto Valle, Willian, irmão da Williana e filhos da Dona Rosa, que tinha uma mercearia no Morro da Liberdade. Depois de três dias sem dar notícias, apareci em casa e vendi a sucata do tinha sido um dia meu carro, para um morador do bairro.

Tantos amores vivi, tantos amores perdi, tantos anos se passaram e hoje me vejo aprisionado por duas bactérias hospitalares, caminhando lento e sem visão lateral pelo Condomínio, onde resido atualmente e faço parte de seu Conselho de Administração. O tempo é ingrato com todos e foi ingrato comigo mais ainda porque duas bactérias que se alojaram em meu cérebro e, mesmo tomando antibióticos desde 2006, não me livrei delas. A última convulsão que sofri e que tive que ser hospitalizado, mas não internado e sem cirurgia, ocorreu em 30 de novembro de 2002. Ah, como sinto saudades de tudo o que vivi: picolé com o sanduíche de ovo que comia na merenda da Escola, do triângulo de cascalheiro em minhas mãos, batendo como se fosse um louco e anunciando que tinha um tambor maior do que eu em minhas costas, da caixa de picolé no ombro que carregava, do jornal que transportava embaixo e deixavam tintas em minhas roupas, das palmeiras imperiais que existiam na Praça da Matriz, dos trilhos de bonde retirados do mesmo, derrubadas pelo ex-prefeito Jorge Teixeira de Oliveira para dar lugar a primeira estação de ônibus, das ruas calçadas de paralelepípedos, no centro de Manaus. 

Das corridas que dava quando criança livre, leve e solta e sem pensar em nada! De tudo tenho saudades, mas cresci, passei a ter responsabilidades, casei duas vezes, ao terminar a faculdade de Jornalismo e depois Serviço Social.

Se saudade matasse, tenho certeza que já estaria morto!

11 comentários:

  1. Milton Xavier/Jornalista4 de maio de 2015 18:09

    É meu amigo. Creio que vc ainda vai ser curado. Em nome de Jesus. Esse nome tem poder. Vc merece.

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  2. Corretor W. Rolin4 de maio de 2015 18:14

    Comprei muita tira de sandália havaiana la no mercadinho três irmaos

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  3. Parabéns, pela sua crônica, saudade como você discorre e outras façanhas de sua vida, realmente você deve ter aproveitado bastante, por ser jovem mas só, , discordo quando você cita que ja está velho e chato.

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  4. Carlos tive uma convulsão hoje emoções!

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  5. Concordo com o comentário do Milton Xavier. O cuidado com os detalhes de tudo o que você diz é próprio de uma inteligência acima do normal, que muito tem ainda a oferecer a esse mundo tão carente de seriedade e de vigilância com os reais valores. Abs. Maria do Carmo - BH

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  6. As lembranças fazem parte de nossas vidas, nos faz voltarmos a momentos importantes alegres ou não, mas é o que construímos ao longo de nossa existência. Creio que sentimos Saudades de algo que foi bom e nos deixou Boas lembranças.
    Pe. Fábio de Melo: "Se pela força da distância tu te ausentas, pelo poder que há na saudade, voltarás"!

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  7. Gutiérrez Filho5 de maio de 2015 03:30

    Um dia vamos olhar : Nossos filhos estarao grandes e diremos. Pai e mae.E no fundo. Nisso se resume a vida

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  8. Carlos, você é um companheiro insofismável! Escreves muito bem. não apoio este rodizio de troca de nomes de ruas, especialmente por decreto, sem consulta a população local. Sempre teremos boas recordações de infância. Ser exigente não é ser chato, forte abraço e obrigado pela citação...

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  9. Amigo e bravo jornalista, Carlôs. Uma soberba crônica, meu caro! Plena de excelentes figurações e vazada em termos de puro sentimento. Apesar de tudo, colega, vc está vivo e (o que é melhor) escrevendo continuamente e tendo muita coisa pra contar. Agora, o que era só lembrança está eternizado! gde abç

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  10. Maria Da Glória Tavares5 de maio de 2015 12:55

    Oi amigo como sempre vc me faz viajar em suas lembranças,volto a minha infância só muda o lugar! Mas é assim que gostaria de passar minhas lembranças pro papel!Amigo obrigado por vc existir!

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  11. Francisca da Silva/Natal6 de maio de 2015 07:22

    Carlos: Adorei sua crônica, linda linda, continue assim. Fiiquei bastante emocionada. Puro sentimento.
    Parabens. Abraços, para toda família.
    França

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