terça-feira, 8 de novembro de 2016

NA "TERRA DAS CIRANDAS": MANACAPURU!


Dormi de sexta para sábado em Manaus ao som do canto triste de periquitos e acordei domingo 5:30 horas da manhã no município amazonense de Manacapuru, ouvindo  o canto feliz de galos.  Viajei no sábado pela manhã para a “Princesinha do Solimões”, hoje também conhecida por terra das Cirandas dos Guerreiros Mura e Flor Matizada, as mais conhecidas e divulgadas, mas existem outras. Boneco em papel machê, dos cirandeiros,  em tamanho quase natural, nos receberam no Portal da Cidade. Observei que o Restaurante Rodoviário, que ficava na saída da cidade, se encontra agora quase no meio dela. Com essa observação empírica, constatei que o município cresceu muito com a construção da Ponte Rio Negro, que o interligou a capital.  Foi no Rodoviário, comi pela primeira  vez um saboroso pirarucu recheado com queijo, ouvindo música de pagode em uma área lateral e aberta. Dessa vez, mesmo com água na boca só em pensar em como era gostoso esse prato, não deu para entrar, para ver se os donos ainda eram os mesmos e se ainda serviam o mesmo prato, com a mesma qualidade. Há mais de 16 anos não retornava ao município.

Estive pela primeira vez aos 17 anos,  em  excursão com um grupo a de pagodeiros, dentre eles  o Bida e Deje. Com os dois jogava futebol de salão como goleiro na quadra do SESC, da Rua Henrique Martins. Estava tudo certo: todos ficariam hospedados no Hotel JK, um dos únicos na época na cidade, mas trocava de dono e de nome constantemente. Ele ficava em frente à praça da cidade, com a santa padroeira em concreto bem ao meio dela. Um pirarucu pequeno se exibia e era uma atração turística.  Como nem todos conseguiram vagas os que ficaram fora, iniciaram um pagode no centro da praça. O MEC – Manacapuru Esporte Clube, próximo, esvaziou e a praça lotou. O Delegado Cruz, da PM, considerado linha dura na cidade, apareceu e deu voz de prisão a todos por perturbação ao sossego público.  A sede da Delegacia não caberia todos os pagodeiros. O Delegado Cruz, pensando melhor para a cidade, ofereceu de graça uma casa de madeira ao lado do cemitério da cidade. Todos os que estavam hospedados, fecharam suas contas e retornaram para o ônibus. A casa era velha, quente, abafada e muitos foram dormir sobre tumbas dentro do Cemitério. O samba continuou dentro do cemitério. Denunciados de novo, não apareceu ninguém.  Um clube próximo, em uma esquina, com música ao vivo, esvaziou e todos foram ver o que estava acontecendo dentro do cemitério. De manhã cedo, todos deixaram a cidade e retornaram para Manaus.

Mais tarde, aos 20 anos, como jornalista, retornei e a “Casa da Cultura”,  abriu as postas para o lançamento do primeiro e único livro de poesias (DES)Construção. Também seria o primeiro lançamento que faria fora de Manaus. Na cidade que sempre  me acolheu tão bem, contei com a ajuda e o apoio de um jovem como eu, Pedro Palmeiras, envolvido em movimentos católicos e culturais na cidade. Compareceu ao lançamento e mobilizou estudantes. Depois, perdi o contato com “Pedrinho”, como era conhecido. Mas  sempre que voltava ao Município, procurava ter notícias: depois de se tornar o vereador mais jovem do Brasil aos 19 anos, abandonou a política, abriu posto de gasolina, montou uma emissora de rádio e perdi o contato com ele. Mas quando o conheci, “Pedrinho”, me recebeu  ajudando seu pai em uma venda que tinha em um flutuante em frente da cidade.  Hoje virou só história para os mais jovens e lembranças para mim.

Acompanhados sempre pelo primo da Josiane, Inácio Farias, conhecemos a Pousada e Balneário  “Cirandeira Bela Amazon Cabins”, localizado no KM 10 da Estrada para o município de Novo Ayrão, onde voltei a ver motoqueiros desafiando a morte, sem usar capacetes, ao contrário da senhora que vimos estendida no asfalto na chegada à cidade. No domingo  pela manhã, sempre na agradável companhia de Inácio Farias, estivemos no “Paraíso  D’angelo   localizado no Rio Miriti, que secou mais de dois metros além do normal, como disse seu dono que é amigo do primo de Joseane. Rever a tia Terezinha, sua filha neta Lycila Amaral, saber um pouco mais a origem de meu avô, José Raimundo Torres nascido em uma pequena cidade da Paraíba  e falecido no dia 15/05/1977. Ao contrário do meu avô que dizia que a cidade dele continuava sempre igual em tudo, Joseane Farias, tem orgulho de dizer que é nascida no município de Monteiro, que o cantor e compositor Flávio José foi criado como se fosse seu irmão. Tudo isso foi ótimo! Também fiz um passeio no tempo  e relembrei um passado  que pensei que tivessem sido apagadas pelo tempo ou da memória!


Contudo, o nome “Estrada AM-010 – Henock da Silva Reis” seria uma homenagem justa para quem foi prefeito de Manacapuru, Ministro do Tribunal Federal de Recursos e governador do Amazonas.  Contudo, como escreveu o escritor Rogel Samuel, no livro “Teatro Amazonas”, o Estado não reconhece os valores do passado e homenageia políticos do presente.  “Ao sair do Templo” discurso de colação de grau da Faculdade de Direito  e “Temas de Direito Constitucional e Social”, do concurso para ingressar como professor de Direito Constitucional da Faculdade de Direito do Amazonas, são algumas das tantas obras deixadas pela pessoa que abriu a Estrada de Manacapuru e a interligou à Manaus.

10 comentários:

  1. Muito bem escrito, meu amigo. Ainda falta muito para o nosso Brasil, né?

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  2. Luiz Celso Santos de Olivera8 de novembro de 2016 14:54

    Realmente morto não se incomodakkkk

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  3. Papiniano de Castro Neto8 de novembro de 2016 15:40

    Muito bom colher conhecimento da nossa região. Carlos, essas informações com rico detalhe só enriquece a nossa cultura.

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  4. Eunice Oliverira de Mello8 de novembro de 2016 16:12

    Muito bonito. Obrigado.

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  5. Excelente! Memoria vivida e revelada de forma belíssima!

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  6. Bela crônica amigo...

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  7. Carlos Farias Kaka9 de novembro de 2016 16:08

    Olha Rafael Palmeira, Carlos Costa fez esse texto depois de alguns anos, inclusive comenta sobre o seu pai, saudoso "Pedrinho Palmeira"

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