quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

VOYER PIRIQUITAL!


Tornei-me um voyer piriquital!

Mesmo sabendo que eles não estarão mais lá, subindo e descendo pela grade dos condicionadores de ar do apartamento, sempre que entro no banheiro pela manhã, abro o basculante na esperança de  vê-los de novo, um desfilando só para mim como se fosse  um rei e outro escalando a grade para alcançar as uvas que pedi a secretária Maria Joaquina Paes, as deixasse só para eles, com água ao lado. Infelizmente, sem meus óculos 8,5 graus que passei a usar desde 2006, se vejo algo que meu subconsciente  identifique como de cor verde, fecho o chuveiro, deixo o box, pego o olho auxiliar na bancada de granito e volto para ver  de novo. Mas ele não está mais lá. Foi só mais uma ilusão da mente ver verde em lugar do preto do fio de energia  pela ligação dos dois outros condicionadores do imóvel.  

Originalmente, o apartamento foi projetado para ter apenas dois bi Split e mandei instalar quatro independentes. O Kavawaki,  só era vendido em Porto Velho e custava mais de 50 mil reais. Do outro lado da linha, o vendedor que parecia ser o dono insistiu na venda, dizendo-me que era o mais moderno do mundo, que parcelaria a venda em três vezes no cartão de crédito, que seria entregue já instalado em Manaus, que não cobrariam pela instalação como se já não estivesse embutida no preço do negócio, que o controle avisaria quando seria preciso fazer a manutenção. . “Quero uma bicicleta para andar; não uma Ferrari para correr nas ruas esburacadas de Manaus”. O vendedor apenas riu e entendeu minha gozação.  Apesar das facilidades, não fechei negócio!

Já estava ficando mal acostumado por ter me tornado um voyer de um deles e, eu, brechando-o pela janela do banheiro. O avistava de manhã e de tarde, subindo e descendo só para comer uvas que a secretária Maria Joaquina Paes, colocava em um prato. Meu periquito parecia o rei do pedaço: usando o bico subia pela grade, entrava na vasilha, comia as uvas e espalhava restos em cima da máquina do aparelho. Depois fazia a cesta, parecendo dormir e depois voava para cantar com os outros de sua espécie  na árvore que avisto pela janela da cozinha. Eu e ele estávamos ficando mal acostumado. Depois do dia 31 de dezembro, quando os ajudei a se refugiarem dos fotos de artificio no apartamento com em que convidados, dois mais graves, os segurei na mão e os fotografei. Depois de beberem água da torneira e voaram. Estavam agitados pelos fogos. Dos cinco que ajudei, dois passaram a voltar. Um deles entrava no apartamento, descansava na fruteira, se escondia atrás de uma TV de 20 polegadas que mantendo na cozinha. Como eu, ele também estava ficando mal acostumado e já se sentia o dono do apartamento, que antes dele, quando existia uma floresta primária no terreno.

Agora, sua ausência me faz falta e causa uma dor em mim de forma estranha, como descreveu Antoine de Saint Exupéry – “você é responsável pelo que cativa” -. Cativamo-nos: eu por vê-lo como se fosse um voyer periquital, sem saber que o observava, fotografava e o filmava de longe. Como não veio mais há duas semanas, suponho que também morrido atropelado com outros que dormem nas árvores e são derrubados pelos caminhos e carretas que trafegam em elevada velocidade na Avenida Efigênio Sales, sem qualquer respeito às placas pedindo que reduzam a velocidade e façam uso da faixa da direita  e depois retornem à faixa da esquerda como determina o Código Brasileiro de Trânsito.


Contudo, como só existem promessas e não ações efetivas, as placas  existentes só servem de enfeite e a matança continua todos os dias, não  mais como na primeira vez com mais de 200 periquitos estendidos no asfalto negro da rua e sendo esmagados pelas rodas apressadas dos veículos.  Era praticamente impossível se desviar de todos eles sem correr o risco de cometer acidente.  Depois dessa “mortandade periquital”, colocaram placas e ficou só nisso. As placas fazem efeito para quem tem consciência, responsabilidade ambiental e respeito a natureza. Ela está falando, gritando, se desesperando, mas poucos a escutam, principalmente os órgãos ambientais criados para protegê-la. Será que agora IPAAM, sabendo os periquitos morreram envenenados tomará alguma providência?  Acho que não, porque são apenas periquitos, sem importância alguma!

4 comentários:

  1. Paulinha da Silva Almeida26 de janeiro de 2017 09:36

    Querem voltar para suas casas!

    ResponderExcluir
  2. Aqui on São praticamente 24 hhoras seus cantos
    Chega a incomodar
    Mas já me habituei

    ResponderExcluir
  3. Nossa até me emocionei, tudo que você citou tem importância sim e como.... Você é um ser humano sem igual, eu também já chorei muito por conta de dois periquitos uma linda história.

    ResponderExcluir
  4. Maria Hirschi/Suiça27 de janeiro de 2017 06:01

    É,mesmo uma pena!A falta de respeito é falta de educacao,e esses orgaos nao serve para nada

    ResponderExcluir